Dicas de Saúde

02/02/2017

Sexualidade na Gestação. Conheça as diferenças em cada fase da Gestação.

thalia-6Penetração, masturbação, ou qualquer outra atividade que possa levar ao orgasmo estão associadas a vasocongestão da pelve e contrações musculares, incluindo da musculatura que forma o útero. Sabendo disso, de imediato você pode pensar que seria melhor evitar o ato sexual durante toda a gestação. hum? Não é bem assim. Além disso, alguns casais tem medo de “bater” no bebê e causar dor com a penetração. Muita calma. Vamos conversar mais sobre isso e deixar claro o que pode e o que não é aconselhável. Já adianto que nós, médicos, orientamos suspender atividades sexuais apenas em situações bem específicas.

 

shutterstock_43847248 Desafio de viver a sexualidade em cada trimestre

Primeiro trimestre: Náuseas com ou sem vômitos, labilidade emocional, cansaço e cólicas são sintomas frequentes no início da gestação. As mamas, em preparação para a lactação, provavelmente dolorosas e com mamilos hipersensíveis podem dificultar um pouco. A elevação da progesterona pode reduzir a libido. O medo do aborto também pode atrapalhar.

Segundo trimestre: Os sintomas iniciais de náusea e cólica costumam melhorar nessa fase. É possível notar o crescimento do útero, sinal claro de gravidez, que por si só pode elevar muito a libido, principalmente nos casos em que a gestação é muito desejada. O risco elevado de aborto passou, e a segurança e o conforto podem ocupar o lugar do medo e da ansiedade. O aumento da vascularização da pelve e da lubrificação facilitam a penetração vaginal e as respostas sexuais se intensificam na maioria das mulheres. Viva o segundo trimestre :). Viva!

Terceiro trimestre: dificuldade para encontrar uma posição pelo crescimento do útero, falta de ar e edemas. Dor lombar pela mudança do centro de gravidade forçando a coluna. Ansiedade, irritabilidade, cansaço e sonolência… parto próximo e agora? Nesse período para muitos casais a frequência da pratica sexual cai muito. Não só pela mulher, mas pelo homem também. por outro lado a relação sexual pode ser encarada como uma forma de relaxamento, inclusive na preparação para o parto.

Desafios extras:

  • Vencer o medo de que a relação sexual pode levar ao aborto, parto prematuro e prejudir ou causar dor no bebê.
  • Transar na presença de outra pessoa: um bebê intrautero se movimenta por vontade própria, chuta ou pula bem naquela hora H. Para alguns é levado de forma leve e até engraçada, por outros não, se sentem observados.
  • Mulheres que vivenciam o sexo com o pano de fundo de procriação, quando estão gravidas podem sentir seu desejo saciado e reduzir a libido.
  • Homens podem perder o desejo pela mulher grávida temporariamente (1/3 de acordo com Dra Carmita Abdo – Prosex USP) tanto pela crença da figura materna assexuada quanto por proteção ou medo de causar dor a parceira ou ao bebê.
  • Transformação do relacionamento, redefinições de papéis e responsabilidades. Vivência do casal diante da fragilidade, ansiedade e medo, onde cada um mostra um lado novo que não se conhecia ou que era controlado anteriormente.

Pontos Positivos

  • Relação sexual para conhecimento e exploração: conhecer novas posições e novas possibilidades que podem ser usadas mesmo depois que a gestação termine.
  • Gestação como sinônimo de “macho fértil” “fêmia fértil”- com influencia social em muitas culturas.
  • Melhora da resposta por aumento a vascularização da pelve e da lubrificação vaginal
  • Não há preocupação com métodos para evitar gestação
  • Crescimento da intimidade do casal, comprometimento e aceitação do outro nos momentos de maior fragilidade como gerador de vínculo e aprofundando a sexualidade.

 

Posições

Não exite uma posição certa ou errada. O que ocorre é uma adaptação de acordo com aumento da barriga, redução da mobilidade e sintomas de acordo com cada fase da gestação. Alguns autores orientam evitar posições em que o pênis entraria bem lá no fundo, como a mulher sentada por cima e orientam evitar assoprar a vagina durante o sexo oral pelo risco de embolia, ainda assim o risco é baixo.

As posições de lado, mulher de frente ou de costas para o marido, são muito boas para o segundo trimestre quando o volume do útero não está tão grande ainda.  Ficar de barriga para cima pode resultar em dificuldade para respirar, principalmente mais no final da gravidez, por isso a maioria das mulheres se sente melhor por cima ou de lado. Colocar um travesseiro pode ajudar tanto para escorar a barriga como para proteger as mamas, quando doloridas.

 

Contra-indicações

A presença de um fator que seja contra-indicação ao sexo significa que o ato sexual deve não ser realizado durante o período específico orientado pelo profissional que a acompanha, e não necessáriamente durante a gestação inteira.

Se nunca tenho orgasmo com penetração então posso ter penetração na vagina, certo? errado.

Existe um reflexo chamado Ferguson onde o estímulo do colo resultaria em contrações uterinas, logo, com ou sem orgasmo a penetração deve ser evitada sempre que indicada interrupção da atividade sexual.

  • RUPTURA DE MEMBRANAS AMNIÓTICAS
  • SANGRAMENTO
  • AMEAÇA DE ABORTAMENTO
  • TRABALHO DE PARTO PREMATURO
  • PLACENTA PRÉVIA
  • E OUTRAS (avaliação individual de cada caso pelo obstetra)

Estou grávida e não posso ter relação sexual com meu marido, mas ele ou eu mesma podemos realizar masturbação em mim?

Vale ressaltar que o problema é tanto o estímulo do colo do útero, quanto as contrações uterinas presentes no orgasmo. Se você lembrar que grande parte das mulheres não tem orgasmo com penetração isolada, orientar apenas para não ter orgasmo ou só falar para não ter penetração pode gerar dúvidas. Estando contraindicado ato sexual estamos falando de estimulação das mamas, masturbação ou qualquer outro ato que a imaginação puder conduzir ao orgasmo ou que envolva manipulação do colo ou vagina com ou sem orgasmo.

 

Considerações Finais

A sexualidade deve ser exercida de forma natural durante a gestação. A cultura e as vivências emocionais que ditarão as crenças influenciando no desejo e na atividade sexual do casal grávido. A sexualidade traz diversos benefícios para o casal. Para as mulheres que mesmo corretamente orientadas, optam por não realizar penetração, vale lembrar que existem outras formas de carinho, cuidado e prazer além da penetração. É importante conversar com seu obstetra para que ele participe desse momento e esclareça possíveis dúvidas.

O sexo pode ser envolvido de muito preconceito tanto pela mulher, quanto pela parceria ou mesmo pelo médico. Algumas mulheres apresentam disfunção sexual prévia a gestação e é importante diferenciar esses casos.

Quando o médico muda o tom ou o volume da fala em perguntas desse assunto transmite dificuldade em lidar com o tema, podendo dificultar a comunicação do casal grávido que já sentia dificuldade suficiente em procurar ajuda. Na maioria das vezes a orientação de forma clara, objetiva e direta traz mais benefício que a comunicação travada e com “cuidados”. O conhecimento da psicologia desse período é importante para evitar agravamento do quadro. Outros profissionais como psicólogas, doulas e enfermeiras também participam desse processo e muitas vezes se mostram mais abertos que os próprios médicos para falar sobre isso. Não há motivo para não conversar sobre esse assunto.

 

Leia também sobre Sexualidade no Pós-parto.

 

Dra Thalia Maia   CRM DF 19006

Ginecologista e Obstetra